quarta-feira, dezembro 22, 2004

Um homem vira uma ampulheta, na sua mão direita, e mais uma vez, inexoravelmente, os pequenos grãos de areia dentro do artefacto iniciam mais uma caminhada para o espaço agora vazio, do outro lado do vértice do globo onde estão.
Este homem acabou de perder o dinheiro que lhe restava. Já nada lhe resta, agora, a não ser as roupas que se lhe colam ao corpo, e a ampulheta. Felizmente, é verão, e o frio não é, por enquanto, um problema.
Sem tirar os olhos dos grãos que correm, apressados, dentro da ampulheta, o homem perdeu a noção do tempo; ele olha para a ampulheta porque nela vê movimento, mesmo que um movimento estático, sempre confinado ao mesmo percurso, mas é um movimento... E ele espera que a inércia da ampulheta se espalhe para ele, como que por graça divina. Pois parar seria igual a morrer. Nem valeria a pena esperar, ele terminaria a sua vida ali mesmo, no riacho que ouvia correr perto. Se nada mais lhe restava, então que tivesse ao menos uma morte rápida, limpa e longe de olhares indiscretos.
Engraçado, de certa maneira, que alguém que já houvesse morto tantos, alguém que já havia roubado e pilhado no primor da sua vida, estivesse agora preocupado com uma morte mais ou menos digna... Mas são pensamentos como este que nos assolam quando tudo o que temos nos abandona. Mas não ele, oh não. Ele não seria mais abandonado. E aqui, o homem pareceu despertar um pouco, e tomou uma decisão: volvida a última viagem dos grãos de areia, terminada a sua corrida no lado oposto do item, ele teria de ter uma decisão tomada. Ou encontraria uma solução para a sua vida... Ou punha-lhe termo. Fosse como fosse, a sua decisão, de tomar uma decisão, estava tomada.
Ora então: que esperança haveria para ele de viver uma vida normal? Nenhuma. Absolutamente nenhuma. Ele não sabe, nunca soube, o que era isso. E voltar a viver uma vida de crime? Neste território? Totalmente impensável. Ele era um criminoso afamado... Afamado demais. Não havia ninguém que não o conhecesse nesta zona, e depois do que havia acabado de acontecer... Não havia ninguém que não andasse atrás da sua cabeça.
Um estremecimento de horror percorre o homem de cima abaixo ao pensar no que se havia passado. Mas não tinha tempo para pensar nisso; tinha de se concentrar em encontrar uma solução. Metade dos grãos já havia pousado no fundo da ampulheta.... E os restantes não paravam.
Talvez ele pudesse fugir, para longe? Mas para onde? E como? As terras onde ninguém o conhecia ainda se apartavam demasiado do horizonte a olho nú, tlavez até tivesse mesmo de apanhar um barco, mas não tinha vintém... Talvez viajando como clandestino? Mas recordou-se da história de um ladrão de uma das guildas da cidade vizinha, que tinha chegado ao país de barco, como passageiro clandestino... E quando chegou, foi apanhado no porão das mercadorias por um marinheiro enorme, que gostava quase tão pouco de clandestinos como o seu capitão, que lhe ordenou que decepasse a mão direita do penetra... Portanto, esta também estava riscada.
Todos os caminhos a pé ou de transporte estavam fortemente guardados, e as montanhas circundantes da região só albergavam neve e morte certa para quem enfrentasse os cumes tão parcamente vestido como estava o homem. E ele também não sabia nadar...
O tempo escoava-se, literalmente, como os grãos de areia pela ampulheta. E nem sinal de uma solução. O homem começou a dar passos, ás voltas, como se caminhar lhe pusesse as idéias em andamento. Mas nada de novo vinha. Nem ele era capaz de se concentrar, com as imagens ainda frescas dos seus recentes actos que haviam posto todo um povo atrás de si.
Mas ele tinha de encontrar uma solução, ele precisava de encontrar uma saída! A ampulheta parecia estar contra si; ainda há pouco parecia estar mais cheia! Os grãos fogem tão depressa... E deixam atrás de si a morte, cada vez mais perto. Uma resposta ao seu enigma! Não, não passavam de pensamentos soltos de encontros passados... Ele tinha de pensar, pensar, pensar! O tempo chegava ao fim! Já se via uma profunda depressão no meio do montículo de areia que continuava a avançar. O homem calculou que devia ter apenas um par de minutos... Não! Pensar, pensar, pensar! Mas ele não conseguia pensar, não conseguia deixar de fitar a areia dentro da pequena ampulheta, na palma da sua mão. O fim já estava próximo... Pensar, pensar, pensar! Não! Ela vem! O tempo e a areia vão, e a morte fica! Não! Ele tinha de pensar, pensar, pensar... Últimos segundos... Última réstia de areia... Pensar, pensar, pensar! Mas não conseguia, não tinha tempo que chegasse! Precisava de mais tempo, mais tempo! Se ao menos a ampulheta tivesse mais areia.... Mas não! Era a última! MAIS TEMPO!!!
Foi então que o homem puxou atrás o seu braço direito, e com toda a força que lhe restava, arremessou a ampulheta contra uma pedra próxima. A ampulheta estilhaçou-se, e os grãos de areia, que há pouco pareciam tão ameaçadores, espalham-se pelo chão, levados pela brisa... E desta vez, o homem escolheu o fim do tempo, em vez do seu próprio fim... E partiu.

terça-feira, dezembro 21, 2004

Quem és tu?

Sempre te tive na mais alta das considerações. Sempre te vi como inteligente, bela, culta, mordaz, como todas as mulheres, mas nunca de maneira vulgar. Sempre te olhei de baixo, sempre estiveste num patamar inatingível para mim, mas isso nunca me importou. Estar contigo sempre foi como ter um pequeno pássaro na mão, que sufocava se o apertássemos demais, mas que fugia se a oportunidade lhe fosse dada. Sempre foste o sonho que nunca se realizou (felizmente). Sempre tiveste essa tua sabedoria e perspicácia perigosas demais para os que te rodeiam. Podias ter o mundo a teus pés, se o quisesses, mas escolhes conquistá-lo a pouco e pouco. Podias ser rainha dos Malditos, podias ser senhora do Sol, mas escolheste ser tu... E não te conheço. E não te deixas conhecer. E talvez tenha sido nesse único ponto que nunca me conseguiste enganar: eu sempre soube que não sabia, como ainda hoje sei. Pois alguém grande como tu devia ocupar mais espaço, mas dás de comer a quem te rodeia muitas bolas de sabão, coisas sem conteúdo para alegrar a vista, mas sem parte nenhuma de ti... Será que já te tentaram conhecer antes? Será que te mostraste? Ou nem tu sabias quem eras? Em todo o fascínio que sempre me causaste, em todas as maneiras que sempre me impressionaste por seres quem és (o pouco que conheço de ti), a parte que sempre me causou mais desilusão foi a tua partida. O nunca saber se ia poder beber mais de ti. O ter que passar dias, meses, anos, tentando adivinhar o que teria eu feito desta vez, quando teria eu apertado o passarinho demais na minha mão para o voltar a fazer querer partir... Pois se é certo que eu erro, também é certo que mereço mal... Talvez não passes de mais um dos Némesis com que eu pareço não parar de esbarrar. Tu, como tantos outros antes, apareces e desapareces... Porquê? O que queres tu manter que não o possas fazer enquanto eu existir? O que há em mim que te causa tanta repulsa de um dia para o outro, para que te vejas forçada a partir? Para onde vais? Para algum lugar onde só estrelas cadentes são admitidas? Sim, pois tens em ti um pouco de estrela cadente: escolhes um ponto no céu onde brilhas, deixas o teu rasto de luz para quem olha para ti, mas desvaneces, sem mais nem menos... E esperas que o brilho da tua cauda seja suficiente para que nunca ninguém procure o ponto da sua origem. Mas sempre que escolhas partir, e sobretudo, sempre que escolhas voltar... Eu estarei lá. Talvez me odeies por isso, talvez eu me odeie a mim próprio por isso, mas... Estarei lá.