Um homem vira uma ampulheta, na sua mão direita, e mais uma vez, inexoravelmente, os pequenos grãos de areia dentro do artefacto iniciam mais uma caminhada para o espaço agora vazio, do outro lado do vértice do globo onde estão.
Este homem acabou de perder o dinheiro que lhe restava. Já nada lhe resta, agora, a não ser as roupas que se lhe colam ao corpo, e a ampulheta. Felizmente, é verão, e o frio não é, por enquanto, um problema.
Sem tirar os olhos dos grãos que correm, apressados, dentro da ampulheta, o homem perdeu a noção do tempo; ele olha para a ampulheta porque nela vê movimento, mesmo que um movimento estático, sempre confinado ao mesmo percurso, mas é um movimento... E ele espera que a inércia da ampulheta se espalhe para ele, como que por graça divina. Pois parar seria igual a morrer. Nem valeria a pena esperar, ele terminaria a sua vida ali mesmo, no riacho que ouvia correr perto. Se nada mais lhe restava, então que tivesse ao menos uma morte rápida, limpa e longe de olhares indiscretos.
Engraçado, de certa maneira, que alguém que já houvesse morto tantos, alguém que já havia roubado e pilhado no primor da sua vida, estivesse agora preocupado com uma morte mais ou menos digna... Mas são pensamentos como este que nos assolam quando tudo o que temos nos abandona. Mas não ele, oh não. Ele não seria mais abandonado. E aqui, o homem pareceu despertar um pouco, e tomou uma decisão: volvida a última viagem dos grãos de areia, terminada a sua corrida no lado oposto do item, ele teria de ter uma decisão tomada. Ou encontraria uma solução para a sua vida... Ou punha-lhe termo. Fosse como fosse, a sua decisão, de tomar uma decisão, estava tomada.
Ora então: que esperança haveria para ele de viver uma vida normal? Nenhuma. Absolutamente nenhuma. Ele não sabe, nunca soube, o que era isso. E voltar a viver uma vida de crime? Neste território? Totalmente impensável. Ele era um criminoso afamado... Afamado demais. Não havia ninguém que não o conhecesse nesta zona, e depois do que havia acabado de acontecer... Não havia ninguém que não andasse atrás da sua cabeça.
Um estremecimento de horror percorre o homem de cima abaixo ao pensar no que se havia passado. Mas não tinha tempo para pensar nisso; tinha de se concentrar em encontrar uma solução. Metade dos grãos já havia pousado no fundo da ampulheta.... E os restantes não paravam.
Talvez ele pudesse fugir, para longe? Mas para onde? E como? As terras onde ninguém o conhecia ainda se apartavam demasiado do horizonte a olho nú, tlavez até tivesse mesmo de apanhar um barco, mas não tinha vintém... Talvez viajando como clandestino? Mas recordou-se da história de um ladrão de uma das guildas da cidade vizinha, que tinha chegado ao país de barco, como passageiro clandestino... E quando chegou, foi apanhado no porão das mercadorias por um marinheiro enorme, que gostava quase tão pouco de clandestinos como o seu capitão, que lhe ordenou que decepasse a mão direita do penetra... Portanto, esta também estava riscada.
Todos os caminhos a pé ou de transporte estavam fortemente guardados, e as montanhas circundantes da região só albergavam neve e morte certa para quem enfrentasse os cumes tão parcamente vestido como estava o homem. E ele também não sabia nadar...
O tempo escoava-se, literalmente, como os grãos de areia pela ampulheta. E nem sinal de uma solução. O homem começou a dar passos, ás voltas, como se caminhar lhe pusesse as idéias em andamento. Mas nada de novo vinha. Nem ele era capaz de se concentrar, com as imagens ainda frescas dos seus recentes actos que haviam posto todo um povo atrás de si.
Mas ele tinha de encontrar uma solução, ele precisava de encontrar uma saída! A ampulheta parecia estar contra si; ainda há pouco parecia estar mais cheia! Os grãos fogem tão depressa... E deixam atrás de si a morte, cada vez mais perto. Uma resposta ao seu enigma! Não, não passavam de pensamentos soltos de encontros passados... Ele tinha de pensar, pensar, pensar! O tempo chegava ao fim! Já se via uma profunda depressão no meio do montículo de areia que continuava a avançar. O homem calculou que devia ter apenas um par de minutos... Não! Pensar, pensar, pensar! Mas ele não conseguia pensar, não conseguia deixar de fitar a areia dentro da pequena ampulheta, na palma da sua mão. O fim já estava próximo... Pensar, pensar, pensar! Não! Ela vem! O tempo e a areia vão, e a morte fica! Não! Ele tinha de pensar, pensar, pensar... Últimos segundos... Última réstia de areia... Pensar, pensar, pensar! Mas não conseguia, não tinha tempo que chegasse! Precisava de mais tempo, mais tempo! Se ao menos a ampulheta tivesse mais areia.... Mas não! Era a última! MAIS TEMPO!!!
Foi então que o homem puxou atrás o seu braço direito, e com toda a força que lhe restava, arremessou a ampulheta contra uma pedra próxima. A ampulheta estilhaçou-se, e os grãos de areia, que há pouco pareciam tão ameaçadores, espalham-se pelo chão, levados pela brisa... E desta vez, o homem escolheu o fim do tempo, em vez do seu próprio fim... E partiu.
Este homem acabou de perder o dinheiro que lhe restava. Já nada lhe resta, agora, a não ser as roupas que se lhe colam ao corpo, e a ampulheta. Felizmente, é verão, e o frio não é, por enquanto, um problema.
Sem tirar os olhos dos grãos que correm, apressados, dentro da ampulheta, o homem perdeu a noção do tempo; ele olha para a ampulheta porque nela vê movimento, mesmo que um movimento estático, sempre confinado ao mesmo percurso, mas é um movimento... E ele espera que a inércia da ampulheta se espalhe para ele, como que por graça divina. Pois parar seria igual a morrer. Nem valeria a pena esperar, ele terminaria a sua vida ali mesmo, no riacho que ouvia correr perto. Se nada mais lhe restava, então que tivesse ao menos uma morte rápida, limpa e longe de olhares indiscretos.
Engraçado, de certa maneira, que alguém que já houvesse morto tantos, alguém que já havia roubado e pilhado no primor da sua vida, estivesse agora preocupado com uma morte mais ou menos digna... Mas são pensamentos como este que nos assolam quando tudo o que temos nos abandona. Mas não ele, oh não. Ele não seria mais abandonado. E aqui, o homem pareceu despertar um pouco, e tomou uma decisão: volvida a última viagem dos grãos de areia, terminada a sua corrida no lado oposto do item, ele teria de ter uma decisão tomada. Ou encontraria uma solução para a sua vida... Ou punha-lhe termo. Fosse como fosse, a sua decisão, de tomar uma decisão, estava tomada.
Ora então: que esperança haveria para ele de viver uma vida normal? Nenhuma. Absolutamente nenhuma. Ele não sabe, nunca soube, o que era isso. E voltar a viver uma vida de crime? Neste território? Totalmente impensável. Ele era um criminoso afamado... Afamado demais. Não havia ninguém que não o conhecesse nesta zona, e depois do que havia acabado de acontecer... Não havia ninguém que não andasse atrás da sua cabeça.
Um estremecimento de horror percorre o homem de cima abaixo ao pensar no que se havia passado. Mas não tinha tempo para pensar nisso; tinha de se concentrar em encontrar uma solução. Metade dos grãos já havia pousado no fundo da ampulheta.... E os restantes não paravam.
Talvez ele pudesse fugir, para longe? Mas para onde? E como? As terras onde ninguém o conhecia ainda se apartavam demasiado do horizonte a olho nú, tlavez até tivesse mesmo de apanhar um barco, mas não tinha vintém... Talvez viajando como clandestino? Mas recordou-se da história de um ladrão de uma das guildas da cidade vizinha, que tinha chegado ao país de barco, como passageiro clandestino... E quando chegou, foi apanhado no porão das mercadorias por um marinheiro enorme, que gostava quase tão pouco de clandestinos como o seu capitão, que lhe ordenou que decepasse a mão direita do penetra... Portanto, esta também estava riscada.
Todos os caminhos a pé ou de transporte estavam fortemente guardados, e as montanhas circundantes da região só albergavam neve e morte certa para quem enfrentasse os cumes tão parcamente vestido como estava o homem. E ele também não sabia nadar...
O tempo escoava-se, literalmente, como os grãos de areia pela ampulheta. E nem sinal de uma solução. O homem começou a dar passos, ás voltas, como se caminhar lhe pusesse as idéias em andamento. Mas nada de novo vinha. Nem ele era capaz de se concentrar, com as imagens ainda frescas dos seus recentes actos que haviam posto todo um povo atrás de si.
Mas ele tinha de encontrar uma solução, ele precisava de encontrar uma saída! A ampulheta parecia estar contra si; ainda há pouco parecia estar mais cheia! Os grãos fogem tão depressa... E deixam atrás de si a morte, cada vez mais perto. Uma resposta ao seu enigma! Não, não passavam de pensamentos soltos de encontros passados... Ele tinha de pensar, pensar, pensar! O tempo chegava ao fim! Já se via uma profunda depressão no meio do montículo de areia que continuava a avançar. O homem calculou que devia ter apenas um par de minutos... Não! Pensar, pensar, pensar! Mas ele não conseguia pensar, não conseguia deixar de fitar a areia dentro da pequena ampulheta, na palma da sua mão. O fim já estava próximo... Pensar, pensar, pensar! Não! Ela vem! O tempo e a areia vão, e a morte fica! Não! Ele tinha de pensar, pensar, pensar... Últimos segundos... Última réstia de areia... Pensar, pensar, pensar! Mas não conseguia, não tinha tempo que chegasse! Precisava de mais tempo, mais tempo! Se ao menos a ampulheta tivesse mais areia.... Mas não! Era a última! MAIS TEMPO!!!
Foi então que o homem puxou atrás o seu braço direito, e com toda a força que lhe restava, arremessou a ampulheta contra uma pedra próxima. A ampulheta estilhaçou-se, e os grãos de areia, que há pouco pareciam tão ameaçadores, espalham-se pelo chão, levados pela brisa... E desta vez, o homem escolheu o fim do tempo, em vez do seu próprio fim... E partiu.


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