Quem és tu?
Sempre te tive na mais alta das considerações. Sempre te vi como inteligente, bela, culta, mordaz, como todas as mulheres, mas nunca de maneira vulgar. Sempre te olhei de baixo, sempre estiveste num patamar inatingível para mim, mas isso nunca me importou. Estar contigo sempre foi como ter um pequeno pássaro na mão, que sufocava se o apertássemos demais, mas que fugia se a oportunidade lhe fosse dada. Sempre foste o sonho que nunca se realizou (felizmente). Sempre tiveste essa tua sabedoria e perspicácia perigosas demais para os que te rodeiam. Podias ter o mundo a teus pés, se o quisesses, mas escolhes conquistá-lo a pouco e pouco. Podias ser rainha dos Malditos, podias ser senhora do Sol, mas escolheste ser tu... E não te conheço. E não te deixas conhecer. E talvez tenha sido nesse único ponto que nunca me conseguiste enganar: eu sempre soube que não sabia, como ainda hoje sei. Pois alguém grande como tu devia ocupar mais espaço, mas dás de comer a quem te rodeia muitas bolas de sabão, coisas sem conteúdo para alegrar a vista, mas sem parte nenhuma de ti... Será que já te tentaram conhecer antes? Será que te mostraste? Ou nem tu sabias quem eras? Em todo o fascínio que sempre me causaste, em todas as maneiras que sempre me impressionaste por seres quem és (o pouco que conheço de ti), a parte que sempre me causou mais desilusão foi a tua partida. O nunca saber se ia poder beber mais de ti. O ter que passar dias, meses, anos, tentando adivinhar o que teria eu feito desta vez, quando teria eu apertado o passarinho demais na minha mão para o voltar a fazer querer partir... Pois se é certo que eu erro, também é certo que mereço mal... Talvez não passes de mais um dos Némesis com que eu pareço não parar de esbarrar. Tu, como tantos outros antes, apareces e desapareces... Porquê? O que queres tu manter que não o possas fazer enquanto eu existir? O que há em mim que te causa tanta repulsa de um dia para o outro, para que te vejas forçada a partir? Para onde vais? Para algum lugar onde só estrelas cadentes são admitidas? Sim, pois tens em ti um pouco de estrela cadente: escolhes um ponto no céu onde brilhas, deixas o teu rasto de luz para quem olha para ti, mas desvaneces, sem mais nem menos... E esperas que o brilho da tua cauda seja suficiente para que nunca ninguém procure o ponto da sua origem. Mas sempre que escolhas partir, e sobretudo, sempre que escolhas voltar... Eu estarei lá. Talvez me odeies por isso, talvez eu me odeie a mim próprio por isso, mas... Estarei lá.


1 Comments:
Um dia tive o prazer de partilhar viagem com um desses “desconhecidos” em que tropeçamos invariavelmente, e que, por algum motivo, marcam a diferença como um direito.
A mensagem que me deixou foi um lanço de escadas onde ainda hoje me perco com gosto, ora sentada no primeiro degrau, ora escancarando a janela que cinge o topo, mas sempre aguardando que qualquer outro comboio passe.
“O mundo inteiro não divide as pessoas entre as estranhas e as de família. Mas entre os viajantes e os aventureiros, os arquitectos do nosso coração e os alquimistas. Os viajantes e os aventureiros são pessoas que nos surpreendem de passagem. Os arquitectos, rasgam avenidas ou desvendam planaltos e guiam-nos. Trazem consigo as revoluções tranquilas que acrescentam outro lugar aos pontos cardeais. Os alquimistas desconcertam mais. Abrem persianas na nossa alma, dão-nos sol e transformam-nos para sempre. Como se não chegasse, os alquimistas percebem que aquilo que os destigue as «boas prendas» dos «presentes» são os lanços, e nunca nos perguntam se estamos tristes ou aflitos..”. Também divido as pessoas por três, os pastores, os mansos, e os livres. Os pastores são todos aqueles que se fazem seguir, todos aqueles que causam dependência aos que os rodeiam. Os mansos, são como cordeiros e que acompanham os pastores para todo o lado, eles têm a necessidade de serem comandados. Os livres ou os pensadores, são os soltos das amarras de todos os sentimentos que castram o Homem...esses, são frios.”
Estarás aqui, no meu lanço de escadas.
Enviar um comentário
<< Home